Lealdade e Política
- Frederico Aburachid

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Por Frederico José Gervasio Aburachid
A lealdade e a confiança são valores sobre os quais toda sociedade deve se sustentar.
Antes de qualquer contrato, antes de qualquer lei, existe algo que sempre foi considerado mais forte: o compromisso da palavra.
É a confiança na palavra que permite às pessoas conviverem, negociarem e construírem juntas. Sem necessidade de contrato ou formalismo.
A história guarda lições severas sobre a traição. Judas Iscariotes, ao entregar Cristo por trinta moedas de prata, tornou-se símbolo eterno da perfídia. Brutus, ao cravar o punhal em César (Até tu, Brutus?), provou como a deslealdade pode ser cruel. Em ambos, o que se rompe não é apenas um vínculo pessoal — é a própria ordem que os unia.
Maquiavel, observador atento da natureza humana, ensinou que a política exige astúcia, mas advertiu que os governantes muitas vezes sucumbem ao egocentrismo. Quando o interesse próprio suplanta o bem comum, de tal forma que se troque a lealdade por projetos pessoais, a arte de conduzir os homens degenera em jogo de conveniências.
No campo político brasileiro, a democracia representativa tentou conter esses movimentos, impondo a fidelidade partidária. O propósito era nobre: evitar que mandatos conquistados sob uma bandeira fossem negociados por vantagens pessoais. Mas todo remédio pode virar veneno. Se o próprio partido passar a exigir “trocas não republicanas” de seus membros, a fidelidade deixa de ser virtude.
Por isso a Constituição, no art. 17, § 6º, assegura a justa causa, permitindo a desfiliação sem perda do mandato fora da chamada janela partidária. Protege-se o representante contra a infidelidade da própria legenda.
No interior de Minas, dizemos que a palavra deve ser mais forte que o minério de ferro. Os ajustes verbais dispensam contrato — podem ser no “fio do bigode”, na dignidade que não precisa de papel escrito. Preocupa, hoje, o abrandamento desses valores. A lealdade parece ter virado mero cálculo, e não princípio, corroendo a confiança que dá sentido à vida em comum.
O período eleitoral é uma excelente oportunidade para conhecer melhor quem se candidata — seus valores e seus compromissos —, mas também para observar como a própria sociedade percebe a importância da lealdade. Saibamos valorizá-la. Só assim as relações serão verdadeiramente harmônicas e fiadas pelo bem comum.
*Advogado. Doutorando em Direito Constitucional (IDP). Mestre em Direito (UFMG) e Sustentabilidade socioeconômica ambiental (UFOP).

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